PRA VER A BANDA PASSAR
Inominável
Escrever para baixar a poeira em torno. Parece que passou um vendaval aqui. Arrastou tudo, e, se não me levou, foi porque agarrei. Depois que acabei o livro, tudo ruiu. Sobrou manhas e artimanhas de quem quer sobreviver. Alexis se permitindo apostar ainda mais seu parco destino sabe lá onde, e o inglês Mr. Astley gozando de Ivanovich nas últimas páginas, tirando cada pedaço seu – aquele abraço nada amoroso... E nosso herói querendo que apostas deixariam de existir por intermédio de nossa simples vontade: “Amanhã, amanhã tudo acabará!...”
Lógico que não, Aléxis. As chances são mínimas e não estamos plenos de satisfação. Pior: quanto mais tentamos ficamos mais atolados nesse jogo de aparências e de finitudes. Tudo é muito ilógico; como a roleta a sorte ora senta ao nosso lado, ora é o azar quem dá as cartas. Por bem ou por mal, eis a verdade. Tempo é pouco pra rodar mundo em busca de resposta. Melhor aceitar a dura realidade. Se pensamos vamos encontrar: coisas, puramente coisas. Vida está mais longe do que se imagina. Não penso mais.
Fiquei muito triste com o destino de Prascovia. Não é possível que uma mulher tão forte como ela tivesse o fim que teve. E a vovó que desaparece depois de tanto infortúnio? E o general? Nicha, Nadia, Marta, Potapytch? Seres tão fortes, meu Deus, de repente perdidos, aterrorizados por forças estranhas a eles, com os quais não puderam lutar. Vem o narrador e os põe pra, sabe-se lá... sabe-se lá.
Onde estão meus heróis? Não sobrou nada. Fiquei só, depois de tudo porque passei, fiquei só. Sofri com eles, amei-os até o fim, e eles me somem, são levados sob minha vontade.
Aí estarei calado dentro do quarto querendo-os ao meu lado até que me durma. Porque fui somando: o grito de minha irmã na hora em que ouvia a música preferida da minha vida, arrastar de cadeiras exatamente quando vovó partia de volta a Moscou levando consigo o amor por Prascovia e a gratidão de Aléxis, lembrança de que o suco ficou doce demais, o café deu mal estar, a viagem de meio dia não foi cancelada, e minha mãe viajou, atendi duas vezes telefone por engano, não comprei meu iogurte, desisti de Aznavour por capricho do aparelho de som, fiz as unhas das mãos com a boca, olhei pote de balas vazio. Tudo isso, mais isso: Emmanuele me disse “Vá à merda!”.
O que há? O que está havendo? Sangraram-me com a flecha do inominável.
Licença, mas quando a vida é assim, acho melhor voltar. Abrir brechas em meio às frases e correr pra dentro do que se pensou melhor. Porque só dessa forma pode-se curar a ressaca e apagar os horrores pintados à frente do espelho. Como poder ver, e continuar vivo? Melhor acompanhar Aléxis por toda Paris, ao lado da senhorita Blanche, gastando imensas somas de dinheiro e confundindo as gentes mais hostis a quem não se dá nem nome.
Não posso posar de idiota. Ficando, sei que será mais difícil ouvir a música do vento e a gratidão do dia rosado. Devo desistir agora, mesmo sangrando como estou? Aléxis não desistiu: “Amanhã, amanhã tudo acabará!...”
Ora, essa frase!...
Escrito por Adalberto dos Santos às 10h46
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DOIS TOQUES

1. HOJE (sábado) na TVEBRASIL (RedeBrasil), exibição do “Oratório de Natal”, de Johan Sebastian Bach. Recital com Coral e Orquestra, às 15h, no programa A Grande Música.
2. AMANHÃ (domingo), música popular brasileira da boa. Às 18 horas, também na TVE, show com o cantor e compositor carioca OSWALDO MONTENEGRO, um dos maiores expoentes da nossa música, que ano passado completou 25 de carreira. Ótima oportunidade pra quem não viu ainda o DVD Oswaldo Montenegro Ao Vivo 25 anos, em que o cantor apresenta seus maiores sucessos e composições novas ao vivo no Teatro Dina Sfat, no Rio de Janeiro. Desta vez é o programa ACERVO MPB. Por favor, não percam!!! Sábado: 15h, A grande Música; Domingo: 18h, ACERVO MPB.
Escrito por Adalberto dos Santos às 10h39
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FALANDO EM LITERATURA...
Blog do Correio das Artes
Além da edição impressa que sai aos fins de semana, junto com o jornal A UNIAO, e da divulgação via site do governo do Estado da Paraíba (www.paraiba.pb.gov.br - link Jornal A União), o leitor do CORREIO DAS ARTES agora poderá lê-lo também em seu mais novo espaço interativo. Trata-se do blog do suplemento criado esta semana pelo jornalista e poeta Linaldo Guedes (http://linaldoguedes.blog.uol.com.br), seu editor. O blog estará reproduzindo matérias, poemas, contos, resenhas e ensaios publicados a cada edição semanal do Correio. Segundo o editor, o objetivo é tornar maior a interatividade entre leitor e suplemento, principalmente através da criação de chats onde os leitores poderão conversar com escritores especialmente convidados pela editoria. Na edição número 93, deste fim de semana (08 e 09 de janeiro), a matéria de capa é assinada pelo poeta e jornalista Astier Basílio (http://astierb.blog.uol.com.br), e versa sobre o poeta Zé Laurentino, um dos mais conhecidos nomes da poesia popular nacional. "O sertão é um dos cenários preferidos do poeta Zé Laurentino, na sua utopia poética - como a de praticamente todos os poetas populares- este lugar mítico representa um espaço de redenção, de felicidade plena", diz Astier em seu texto. Completa ainda a edição: poemas do poeta paraibano Fábio Cardoso, texto da escritora Maria da Paz Ribeiro, acerca do livro "Santo Reis da Luz Divina", de Marco Aurélio Cremasco, ensaio de Sonia van Dijck sobre o acarajé, e a tão preci(o)sa coluna do crítico de cinema João Batista de Brito, falando de filme em exibição no ano de 1954. O blog do Correio poderá ser acessado a partir de amanhã, quando os textos da edição já estarão postados, esperando a sua visita. Mas quiser, pode clicar em http://cd-artes.blog.uol.com.br e adicionar aos seus sites favoritos, desde agora, sem problemas. Depois que for lá, e gostar, passa aqui e me diz, tá bom?
Ops! Ia esquecendo: O Correio das Artes existe desde 1949, e foi criado por Edson Régis. A equipe completa responsável pelo suplemento, além de Linaldo, é constituída por: Cícero Félix, editor de Artes, Astier Basílio, reportagens, e Damasceno Júnior, responsável pela editoração. Maiores informações, mande um e-mail para o editor do suplemento: linaldoguedes@uol.com.br.
Riscos: "Subitamente e sem que ele mesmo soubesse como, uma força invisível lançou-o aos pés da moça. Abraçou-lhe os joelhos, chorando. No primeiro momento ela ficou assustada e pálida. Levantou-se vivamente e a tremer olhou para Raskólnikov. Mas bastou-lhe esse olhar para compreender tudo. Uma felicidade imensa se via nos sés olhos radiantes; não podia já duvidar de que ele a amava com um amor infinito, finalmente... Quiseram falar, mas não puderam. Tinham lágrimas nos olhos. Estavam ambos pálidos, mas no seu rosto brilhava já a luz de uma renovação, de um renascimento completo. O amor regenerava-os, o coração de um encerrava uma fonte de vida para o coração do outro. Resolveram esperar. Tinham ainda sete anos de Sibéria; de que sofrimentos intoleráveis e de que doce felicidade devia ser preenchido para eles esse tempo! Mas ele tinha ressuscitado, sentia-o no seu ser, e Sônia - Sônia só vivia da vida de Raskólnikov". (Crime e castigo)
Escrito por Adalberto dos Santos às 11h30
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FORA DA ESTANTE
Os bons livros chegam mudos, de início. Parecem não ter som, mas, de repente, são caixa de música que ninguém escuta, só você. Se vêm brutos, são mansos noutra hora. Quando dóceis, têm pretexto relâmpago de virar feras: mas sabem quem os criou, de onde vieram, para que são. E assim sempre foram, desde a primeira vez. Astros que se movem entre os segredos da boca e o degredo dos olhos. Livro, bom livro é um ser de mil vidas. Lugar dele é o mundo, nas mãos de um outro que o tome e o deixe no colo de um outro pra outro pegar e lançar com as mãos pra o colo de um outro e lançar para um outro no olho de outro que nunca parado deixe o livro parado na mão de um outro. Bons livros que gostei sempre foram assim: desde sempre, minha voz e meu silêncio. Com eles, além da boca da noite, glosando, clamando, vivendo: experiências acumuladas, transformadas. Para pegá-los com as mãos, ir devagar, tocá-los tímidos, quietos, amanhecidos. Já pensaram quantos e quantos livros gostamos na vida?! São muitos. Mas de amá-los mesmo, somente se não morrem no mar de nosso egoísmo; ou seja, se pulam daqui para as mãos de uns outros que os tomem e os deixem nos colos de uns outros pra outros pegarem e lançar com as mãos para os colos de uns outros e lançar para uns outros nos olhos de outros que nunca parados deixem os textos parados nas mãos de uns outros... Aqui nessa página vão alguns livros que amo, livres, para outras bocas e outros olhos, no lugar onde mais gostam de estar: fora da estante. Eis um de um sujeito sensacional que admiro muito, Francisco Carvalho, poeta cearense de Russas, radicado em Fortaleza, autor de quase 30 bons livros de boa poesia, escritos ao longo de cinco décadas de produção poética. Carvalho é um dos grandes nomes da poesia contemporânea, detentor de vários prêmios literários, entre os quais Premio Nestlé de Literatura Brasileira e Premio de poesia da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Ano passado o poeta lembrou-me, como sempre faz ao lançar livro, e me enviou seu Memórias do Espantalho - Poemas escolhidos, antologia organizada pelo autor que reúne textos de 19 livros seus, publicados entre 1971 e 2003. Foi dele que recolhi os dois primeiros poemas, pertencentes a O silêncio é uma figura geométrica, de 2002. Poema das mãos também é da mesma obra, mas não está na antologia; escolhi-o (é certa essa colocação?!) por gostar muito da homenagem do poeta cearense à autora de Coração disparado. Então, vamos lê-lo. Livros à mão...Poesia para olhos, bocas,almas..
POEMAS DO FRANCISCO CARVALHO

PALAVRAS QUE MUDAM DE COR
As palavras mudam de cor quando mudam de lugar. São os camaleões da semântica.
As palavras mudam de plumagem como os pássaros quando pressentem os cios da primavera.
As palavras fazem seus ninhos e põem seus ovos de fogo nas feridas abertas do coração.
DIALÉTICA DO POEMA
Fazer um poema não é dizer coisas profundas. É ver as coisas como as coisas não são.
Fazer um poema não é viajar no espelho. É ir à procura do rosto do homem perdido na escuridão.
É descer às raízes do sangue e do mito. Fazer um poema é estar em conflito com os dedos da mão.
POEMA DAS MÃOS
Para Adélia Prado
As mãos de Adélia Prado tecem palavras e parábolas. São como raízes de uma árvore que reverdece quando tocada pela carícia das primeiras chuvas.
Mãos enérgicas como as dos ceifadores de espigas maduras. Mãos que recordam os aromas do tempo da colheita dos pêssegos. Os pergaminhos onde se escreveram as primeiras revelações dos profetas, os clarões do verbo, onde o espírito arde e permanece.
Mãos robustas dos que podam os brolhos das vinhas dos que desbravam caminhos dos que semeiam o trigo da esperança dos que celebram as epifanias das madrugadas das que lavam roupas e rezam pelas almas dos que se afogaram nos rios.
Mãos de poeta que na mais densa treva vai à procura do fragmento em que se contém a plenitude do eterno.
Escrito por Adalberto dos Santos às 13h37
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LETRAS DE BLOG
De volta ao blogs, agora com maior freqüência, vejo que têm crescido em qualidade os textos que se publicam atualmente neles. Não que há três, quatro meses atrás houvesse tanta coisa ruim e que por causa disso a afirmação que agora faço se tornasse possível. Nada disso. Como disse, estou curtindo mais os blogs, tenho passado às vezes duas, três horas ao computador só passeando por esses espaços de escrita, uns levando a outros, links neste abrindo aquele, e por aí vai. Em meses atrás também havia muita coisa boa, mas só agora tenho tido mais atenção a esse incrível fenômeno do mundo da informática, por isso meu olhar curioso andou percebendo mais mudanças de uns tempos pra cá. Pelo menos até onde sei, há textos sensacionais sendo blogados, e só lendo pra ver. Tirando o cheiro de preconceito que minhas palavras podem ter, afirmo que está havendo mais gente interessada em melhorar a qualidade daquilo que está publicando na Internet. Acho que isso ocorre por dois motivos: primeiro por ser um blog uma espécie de diário que perde, mediante o meio onde as idéias são veiculadas, que perde totalmente sua qualidade particular, privada, de único e exclusivo uso de quem escreve, como acontece aos antigos diários. Aqui o privado cede lugar ao público, e aquele caderninho personalizado, a quem só tinha acesso a pessoa escrevente e seus raros e escolhidos leitores, já era. Na Internet poucos são os casos em que o dono do blog limita a leitura de seu conteúdo a pessoas exclusivas (o que acho uma bobagem). A segunda razão está no fato de que essa publicização do particular vai exigindo do autor mais cobrança, mesmo que inconsciente. O texto publicado na Net não é mais e somente um texto escrito, como se estivesse em algum caderno. O publicado, além de escrito, é mensagem que torna-se comum a muita gente, e não somente a uma; por isso a dimensão do público, sua extensão simbólica incomoda as pessoas, e elas se cobram mais. Para o público devemos nos mostrar mais bonitos, melhor aparentados, sob o risco de nos parecer ridículos. Confira somente um exemplo: nossa estranha necessidade de nos apegar às modas, manifestações tipicamente coletivas, ainda que limitadas a grupos, mas publicamente assumidas. Já tenho dito em outras oportunidades que os diários além de serem o repositório de memórias individuais, por vezes testemunham acontecimentos que chegam à fronteira do coletivo (há relatos de diários reais que viraram excelentes documentos históricos em várias e importantes épocas); e mais ainda: servem também como espécie de escola do idioma, ou seja, são verdadeiros laboratórios de línguas através dos quais seus autores aprimoram, às vezes uma primitiva capacidade de expressão escrita, em verdadeiro suporte de expressão. Nos diários, quando bem usufruídos, desenvolve-se, até mesmo, estilos, como é visível em autores de boas e tantas literaturas. Estava conversando com meu amigo Linaldo Guedes nesse fim de ano e lhe dizia de como estou abestalhado com o crescente numero de pessoas escrevendo perfeitamente em blogs, isso não importando a idade, a formação nem o nível social a que pertencem. Gente diferente em linguagem, sim, em estilos, em escolha de assuntos, mas todas apresentando uma incrível perfeição de detalhes expressivos com a língua que chama a atenção de longe. Segundo Linaldo, a principal característica dessa turma aí é que ela representaria a casta de escritores (ou gente que escreve, no sentido de formadores de opinião) que invadiu os blogs num momento em que ele ainda servia àquela mesma e antiga função de anotação diária das experiências individuais que vão se fazendo memória, agora via Internet. Daí a diferença, a enorme diferença que separa esse grupo de um outro, formado por pessoas - adolescentes, em sua maioria - não preocupadas com a qualidade de suas impressões escritas (embora tenha notado que os adolescentes hoje se preocupam mais com a utilização dos famosos fotlogs, (sf.1. Infor. Pequena coluna social eletrônica, geralmente de caráter particular, utilizada pela juventude internauta) e com o uso dos comunicadores instantâneos. Nos famosos cyber cafés, por exemplo, é comum todos os usuários, em especial os jovens, terem seus milhares de "contatos" junto ao MSN, Yahoo, ICQ, etc). Já acho que essa leva de autores não são somente escritores, são uns poucos privilegiados (de gente mesmo, gente comum, não escritores, não jornalistas, não professores, não intelectuais, etc) que estão demonstrando todos os dias que é possível, para além de toda deficiência de nosso ensino de língua materna, desenvolver habilidades elementares de comunicação escrita pelo simples fato de exercitar a língua, tanto escrevendo como lendo diariamente. Um exercício que qualquer um, com o mínimo de bom senso para com a necessidade de se expressar bem em língua materna, pode fazer. Não foi a Internet nem vai ser o computador, nem a falta de um ou outro em casa, que vai impossibilitar as pessoas de ler e escrever legal. O velho caderninho, o diário antigo, livros, jornais e revistas impressas ainda são materiais de excelente eficácia para a formação de leitores e de bons usuários da língua escrita. Bastam vontade, mãos e olhos. E não precisa que nossos leitores e escritores se tornem poetas, nem jornalistas, nem contistas, nem romancistas, e tampouco "blogueiros que escrevem", basta que aprendam a usar de uma forma mais significativa e útil um patrimônio que lhes pertencem mais do que qualquer coisa: a nossa língua portuguesa. Como professor da área, acho que isso seria a grande revolução no mundo das letras, coisa jamais alcançada pelos planos e programas de alfabetização, nem pelos vários métodos de ensino utilizados por nossos profissionais. Por acaso, sou testemunha de que leitura e prática constante de escrita levam-nos a melhor nos expressar em nosso idioma e nos tornam capazes de aprimorar a cada dia nossa capacidade inventiva, reflexiva e expressiva com ele. E acredito que muita gente desse mundo blogueiro também sabe disso. Afinal, são tantas as letras daqui que é possível haja gente que tomou essa aula. Se pudesse descobriria, só pra agradecer as vezes em que vejo frases tão bonitas, tão bem escritas, idéias tão bem acabadas, que dá gosto. Pode ser que dessa lavra tenha vindo muito ex-colega de formatura. Você que me lê, talvez. Ou quem sabe esse anônimo que sequer vai comentar este post por achar que fui forte demais com as idéias e está tímido temendo escrever meio "errado", por não ser tão bom em matéria de escrita. Tenha medo, não. escreve aí. Também gosto de tua letra. Meu FORTE ABRAÇO.
Adalberto dos Santos.
Escrito por Adalberto dos Santos às 10h45
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ARTE DE VER - 1

Monet - Impressões ao sol nascente
Escrito por Adalberto dos Santos às 03h36
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Nova fantasia
Reações as mais diversas na passagem de ano novo. Gente que fica séria, gente que ri, gente que chora, e, principalmente, gente que chora.
Vi muita lágrima caí nos olhos de amigos. Eu não chorei dessa vez, consegui segurar o choro. Acho que porque já chorei demais em passagens de ano. Ainda que bebesse - em bebendo fica-se mais suscetível.
Mas não bebi, nem se quisesse. Estou numa fase sem álcool.
Embora mentisse a frugalidade de meus gestos, braços devotando o afeto e o desejo de ano novo, estava embriagado de emoção vendo aquelas cenas.
Os abraços, apertados, servem ao consolo: de que você chora, camarada? De tristeza passada que volta na mente, de coisa sem graça que me aconteceu, daquilo mais torto me atrapalhando os sonhos, de raiva, de dor, do mesmo. Chora-se mais ainda pela incerteza: de medo do horizonte misterioso que se entremostra entre o velho e o novo.
E a alegria é, de todos, o mais confuso dos sentimentos. Em ocasiões como essa não se sabe onde está a alegria, se é ela mesma se manifestando nas lágrimas ou se o choro que se chora é mais outra coisa. Talvez seja a infatigável esperança o que toma conta do homem nessa hora, que nunca se cansa, não deixa, não foge de insistir que ele vá longe, mais que todos.
Flagrei um amigo ao celular, depois da virada, conversando com Deus:
“Feliz Ano Novo, meu velho. Olha, estamos aqui, viu? Continuamos; queremos continuar. O pessoal já acertou que vai em frente, mas veja: nada de repetir coisas chatas de ontem, não, tá certo? Tem gente aqui sem entender nada. Você sabe que nem tudo foram flores, meu bom, nem todos os jardins estiveram tão bonitos nos últimos tempos. Tu vai permitir que as feridas fiquem abertas? Sei que não vai, então, continuemos. Sim, continuemos. Lágrimas aqui são a nascente dessa nova vida. Ora, ficaremos juntos: tu aí, nós aqui, mas sempre juntos. È precisa mais alguma coisa? Vai valer a pena, temos certeza. Tchau.Contamos contigo.”
Achei isso bonito. Achei bonito quem chorou. De uma hora pra outra dor e tristeza, misturadas a uma espécie de alegria inexplicável, disfarçadas pelas maiores distrações diárias, vieram à tona. E tudo foi festa. Tudo foi fantasia, como na música do Chico Buarque, que aliás eu ouvia alegremente, desejando muita sorte pra todo mundo, enquanto esse camarada aí de cima falava com Deus:
E se de repente A gente não sentisse A dor que a gente finge E sente Se de repente A gente distraísse O ferro do suplício Ao som de uma canção Então, eu te convidaria Pra uma fantasia Do meu violão
Canta, canta uma esperança Canta, canta uma alegria Canta mais Revirando a noite Revelando o dia Noite e dia, noite e dia Canta a canção do homem Canta a canção da vida Canta mais Trabalhando a terra Entornando o vinho Canta, canta, canta, canta
Canta a canção do gozo Canta a canção da graça Canta mais Preparando a tinta Enfeitando a praça Canta, canta, canta, canta Canta a canção de glória Canta a santa melodia Canta mais Revirando a noite Revelando o dia Noite e dia, noite e dia.
Vamos ver se faremos deste ano uma imensa fantasia, uma grande festa, um maravilhoso sonho do qual só acordaremos ano que vem, mais bonitos, felizes, e ainda mais cheios de fé.
Abraços a todos.
Escrito por Adalberto dos Santos às 09h33
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